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quinta-feira, 15 de março de 2012

Memórias

Tens 88 anos pai.
Muitas vezes, não te lembras que dia é hoje ou em que mês estamos, mas sabes sempre o dia de anos de todos nós; (guardas religiosamente um papelinho já muito amarrutado com todas as datas que são importantes para ti e que consultas quase diariamente, com receio que te esqueças de alguma).
Não te lembras de um acontecimento de ontem, mas contas as dificuldades de uma vida passada, desgastada e sofrida, como se fosse ontem.
Continuas com o teu sorriso aberto a todos e para todos, se bem que muitas vezes não saibas muito bem porque te ris.
Arrastas os pés numa lentidão dorida (por causa dos raio dos joelhos).Sim porque como tu dizes;"sinto-me bem, o pior são os joelhos", mas teimas sempre em andar porque eu sei que um dos teus maiores medos, é quando chegar o dia em que isso já não seja possível.
Continuas a gostar de trazer para casa todos os panfletos de publicidade  que encontras no correio que lês de ponta a ponta e que depois guardas religiosamente na tua gaveta.
Acredito que comes, porque te chamo para comer.Tomas banho porque te digo que são horas do banho.
Sais para a rua porque te digo que vamos sair.....e tu, sereno, sempre risonho, aceitas tudo como uma criança indefesa  cheia de ingenuidade, porque sabe que pode confiar.
Nunca te revoltaste pai. Nunca te revoltas! penso que nunca sentiste o real peso da tua doença.Sabes que estás doente, sabes que já não podes fazer a maior parte daquilo que fazias, mas....não te revoltas!
Ainda há pouco te disse que hoje não podias ir ao café ler o teu jornal porque está a chover e tu sorriste (outra vez )e  apenas te ouvi dizer "ah pois está bem". 
Para ti, está sempre tudo bem pai; a comida é sempre óptima,o que te dizemos está sempre certo...tens uma capacidade de aceitação que não sei de onde vem. Em tempos tivémos muito poucas oportunidades de estar juntos.Por uma razão ou por outra, fomos quase estranhos dentro da mesma casa, apesar do amor que sempre nos uniu. Nestes últimos quase 3 anos, curiosamente temos estado mais juntos do que nunca...mas o diálogo é cada vez mais difícil. Canalha de vida esta! momentos que não aproveitámos, que não vivemos, que não partilhámos em nome do bem estar da família, para que nada faltásse em casa, para  que cada um dos teus filhos fosse aquilo que quissésse ser....tantas horas roubadas à cama, ao descanso ao convívio de umas férias vividas em família...para quê pai? tudo para o bem da família e acabaste por te esquecer de ti e afinal de nós também, porque sempre sofremos a dor das tuas ausências.
Hoje já não é possível recuperar o tempo que passou, mas estás aqui. Bem ou mal, estás comigo..
Amo-te pai. 

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